CONHECIMENTO TAMBÉM É PODER

Não existe transformação duradoura sem conhecimento.
Podemos ocupar espaços, conquistar direitos, desenvolver tecnologias, criar organizações e chegar aos lugares de decisão. Mas existe uma pergunta anterior a todas essas conquistas:
Estamos preparadas para compreender o mundo que queremos transformar?
A Escola Intelectual do Coletivo Rehlum nasce para contribuir com essa preparação.
É um espaço de formação, investigação, debate e produção de conhecimento criado para desenvolver mulheres capazes de pensar criticamente, argumentar, investigar, escrever, liderar, tomar decisões e produzir suas próprias ideias.
Não queremos formar mulheres para repetir aquilo que pensamos.
QUEREMOS FORMAR MULHERES CAPAZES DE PENSAR POR SI MESMAS.
PENSAR TAMBÉM PRECISA SER APRENDIDO
Todos nós construímos nossa maneira de enxergar o mundo a partir de alguma coisa.
Família.
Religião.
Escola.
Cultura.
Experiências pessoais.
Livros.
Redes sociais.
Política.
Amizades.
Trabalho.
Tudo isso participa da formação daquilo que acreditamos ser verdadeiro, certo, errado, possível ou impossível.
O problema começa quando confundimos aquilo que aprendemos a pensar com uma verdade que nunca precisa ser examinada.
Por isso, a Escola Intelectual não começa ensinando o que pensar.
Começa ensinando a perguntar:
Por que penso assim?
De onde veio essa ideia?
Que evidências a sustentam?
Existe outra maneira de compreender esse fenômeno?
O que acontece quando aquilo em que acredito encontra fatos que contradizem minhas certezas?
Investigar exige justamente a capacidade de impedir que nossas convicções determinem antecipadamente nossas conclusões. Essa postura está no centro da proposta intelectual que já vem sendo construída pelas obras ligadas ao Coletivo.
INTELECTUALIDADE NÃO É ACÚMULO DE INFORMAÇÃO
Para nós, ser intelectual não significa saber palavras difíceis.
Não significa possuir muitos diplomas.
Não significa ter lido centenas de livros.
E não significa conhecer autores suficientes para repetir suas ideias.
Intelectualidade é desenvolver a capacidade de observar, investigar, comparar, questionar, argumentar, reconhecer contradições, rever conclusões e produzir conhecimento.
É conseguir defender uma ideia sem precisar transformar quem discorda em inimigo.
É possuir convicções sem perder a capacidade de examiná-las.
É reconhecer quando não sabemos.
É aprender a formular boas perguntas.
E, principalmente:
É TER CORAGEM PARA DESCOBRIR QUE PODEMOS ESTAR ERRADAS.
Essa é uma das formas mais profundas de liberdade intelectual.
UMA ESCOLA QUE NÃO ENTREGA RESPOSTAS PRONTAS
A Escola Intelectual não foi criada para produzir uma nova cartilha ideológica.
Não queremos substituir um conjunto de certezas por outro.
Não queremos dizer às mulheres qual partido apoiar, qual religião seguir, qual corrente intelectual adotar ou como devem interpretar todos os acontecimentos da sociedade.
Queremos fazer algo mais difícil.
Criar ferramentas para que cada mulher desenvolva capacidade própria de análise.
Uma mulher pode entrar na Escola com determinadas convicções e sair mantendo exatamente as mesmas.
Outra poderá modificar algumas delas.
Uma terceira poderá descobrir perguntas que nunca havia considerado.
Tudo isso faz parte do processo.
O importante é que suas conclusões sejam cada vez menos resultado da repetição e cada vez mais resultado da investigação consciente.
Essa liberdade aparece também em A Cultura da Misoginia: a obra declara não ter sido escrita para defender direita ou esquerda, nem para dizer às mulheres como pensar, mas para investigar perguntas ainda pouco examinadas.
NOSSA PRÓPRIA PRODUÇÃO INTELECTUAL
A Escola também será o espaço no qual conceitos produzidos dentro da construção intelectual ligada ao Coletivo Rehlum poderão ser apresentados, estudados, criticados e desenvolvidos.
Entre eles:
Feminicídio do Poder.
Racismo Cultural.
Descompasso.
Reajuste de Eixo.
Esses conceitos não devem existir como palavras que as participantes precisam decorar ou aceitar.
Precisam se transformar em objetos de investigação.
O que significam?
Que fenômenos pretendem explicar?
Onde podem ser observados?
Quais são seus limites?
Que evidências os sustentam?
Podem ser contestados?
Podem ser aperfeiçoados?
Podem gerar novas pesquisas?
É assim que uma escola deixa de ser apenas transmissora de conhecimento e começa também a se tornar produtora de conhecimento.
DESCOMPASSO E REAJUSTE DE EIXO
Um dos exemplos dessa produção aparece em Entre Épocas.
A obra parte de uma contradição da mulher contemporânea.
Mulheres trabalham, sustentam famílias, administram empresas, lideram equipes, tomam decisões e conquistaram uma autonomia que gerações anteriores não possuíam.
Mas determinadas referências emocionais e culturais podem continuar vinculadas a uma organização social que já mudou profundamente.
A obra denomina essa distância de Descompasso e propõe o Reajuste de Eixo: não deixar de amar ou sentir, mas impedir que uma dimensão da existência absorva todas as demais e determine sozinha o futuro de uma mulher.
Isso produz uma pergunta importante para nossa Escola:
COMO EXERCER LIDERANÇA SOBRE A SOCIEDADE SEM DESENVOLVER TAMBÉM A CAPACIDADE DE LIDERAR A SI MESMA?
A Escola Intelectual pretende investigar questões como essa.
Não para determinar a resposta.
Mas para formar mulheres capazes de construí-la.
PODER, CULTURA E A PRESENÇA DAS MULHERES
Outro eixo nasce de A Cultura da Misoginia — Como o poder molda a percepção social sobre a mulher.
A obra parte de uma contradição que também atravessa os projetos da Rehlum: mulheres estão presentes nas universidades, no mercado de trabalho e em praticamente todas as áreas profissionais, mas permanecem em menor número justamente em muitos dos espaços onde se concentram decisões de grande alcance social.
A pergunta intelectual não termina na constatação dessa diferença.
Precisamos investigar por quê.
Como construímos socialmente autoridade?
Quem aprendemos a reconhecer como liderança?
Como cultura, linguagem, comportamento, poder e percepção interferem nesse processo?
Como uma mulher enxerga outra mulher?
Até onde nossas diferenças políticas, religiosas, econômicas e culturais determinam nossa capacidade de reconhecer aquilo que temos em comum?
O próprio livro propõe esse exercício ao perguntar quem enxergamos primeiro quando olhamos para outra mulher e como os rótulos podem anteceder a própria pessoa.
Essas perguntas interessam diretamente à Escola Intelectual.
DA LEITORA À AUTORA
Existe ainda uma ambição maior.
Não queremos apenas criar mulheres que leiam nossos livros.
QUEREMOS CRIAR MULHERES CAPAZES DE ESCREVER OS PRÓXIMOS.
Uma participante pode começar lendo.
Depois questionar.
Pesquisar.
Debater.
Escrever um pequeno texto.
Produzir um artigo.
Desenvolver um ensaio.
Realizar uma pesquisa.
Construir um conceito.
E talvez escrever seu primeiro livro.
É nesse momento que acontece uma transformação importante.
Ela deixa de ocupar exclusivamente a posição de consumidora de conhecimento e passa também a ocupar a posição de produtora de conhecimento.
A biblioteca da Escola, portanto, não precisa estar pronta.
ELA PRECISA ESTAR VIVA.
Cada pesquisa poderá produzir novas perguntas.
Cada autora poderá acrescentar uma perspectiva.
Cada obra poderá gerar outras obras.
Cada geração poderá questionar aquilo que a anterior produziu.
E assim construiremos um patrimônio intelectual que não pertence somente às mulheres que começaram a Escola, mas também àquelas que ainda chegarão.
LIVROS DE REFERÊNCIA
A formação começa com obras produzidas dentro dessa construção intelectual e poderá incorporar progressivamente novos livros, pesquisas, artigos e autores.
A Cultura da Misoginia
Como o poder molda a percepção social sobre a mulher.
Uma investigação sobre cultura, poder, legitimidade, percepção e presença feminina nos espaços de decisão. A obra propõe olhar para além de personagens e disputas partidárias para investigar os mecanismos culturais que influenciam a maneira como mulheres são percebidas quando se aproximam do poder.
Entre Épocas
Mulheres modernas vivendo conflitos de um mundo que já acabou.
Uma investigação sobre o conflito entre a autonomia conquistada pela mulher contemporânea e estruturas emocionais e culturais herdadas de outros períodos históricos. A obra apresenta o Descompasso e o Reajuste de Eixo como instrumentos para pensar autonomia, identidade e liderança.
Essa biblioteca continuará crescendo.
Porque uma Escola Intelectual que realmente produz conhecimento nunca poderá considerar sua biblioteca terminada.
CONHECIMENTO, LIDERANÇA E PODER
A Escola Intelectual se conecta diretamente às demais iniciativas do Coletivo Rehlum.
Formar lideranças exige conhecimento.
Participar da política exige conhecimento.
Construir políticas públicas exige conhecimento.
Desenvolver tecnologia exige conhecimento.
Escrever exige conhecimento.
Questionar o poder exige conhecimento.
E exercer poder com responsabilidade também exige conhecimento.
Por isso, nossa formação intelectual não está separada daquilo que fazemos.
Ela é uma das bases de tudo aquilo que queremos construir.
NÃO QUEREMOS APENAS MULHERES OCUPANDO ESPAÇOS DE PODER.
QUEREMOS MULHERES PREPARADAS PARA COMPREENDER O PODER QUE OCUPAM.
Mulheres capazes de perguntar antes de repetir.
Investigar antes de concluir.
Argumentar sem destruir.
Discordar sem deixar de ouvir.
Reconhecer aquilo que não sabem.
Mudar de posição quando os fatos exigirem.
Produzir conhecimento.
Formar outras mulheres.
E transformar conhecimento em capacidade real de agir sobre a sociedade.
ESCOLA INTELECTUAL — COLETIVO REHLUM
Não queremos dizer às mulheres o que pensar.
Queremos contribuir para que tenham cada vez mais ferramentas para pensar, questionar, produzir, decidir e liderar por si mesmas.
PORQUE CONHECIMENTO TAMBÉM É PODER.
